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“A contribuição feminina é essencial para trazer perspectivas e abordagens inovadoras para a ciência”

O Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência é celebrado em 11 de fevereiro. A data, estabelecida em 2015 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, visa reconhecer o papel feminino na ciência e na tecnologia, além de promover, de forma plena e igualitária, o acesso à ciência. Segundo a Unesco, a porcentagem média global de pesquisadoras é de 33,3%, e apenas 35% de todos os estudantes das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática são mulheres.

Em entrevista à AMIES, a professora e pesquisadora Adalgiza Mafra Moreno fala sobre os desafios enfrentados por mulheres no acesso à pesquisa e sobre medidas fundamentais para promover a igualdade de gênero no meio acadêmico. Graduada em Fisioterapia e Educação Física, mestre em Fisioterapia e doutora em Ciências Cardiovasculares, a professora Adalgiza é coordenadora de pesquisa da Universidade Iguaçu (UNIG) associada da AMIES. “A pesquisa acadêmica não apenas gera conhecimento, mas transforma a universidade em um espaço dinâmico e inovador”, ressalta.

AMIES: Professora Adalgiza, poderia compartilhar um pouco sobre sua trajetória acadêmica e como decidiu dedicar-se à pesquisa?
Adalgiza: Minha trajetória na academia começou em 1992 como professora universitária. Sou fisioterapeuta e, ao longo dos anos, percebi a importância da pesquisa para transformar o ensino e a prática clínica. Durante meu doutorado na Universidade Federal Fluminense, fui uma das poucas mulheres em um ambiente predominantemente masculino, o que reforçou minha determinação em fortalecer a presença feminina na ciência. Quando cheguei à Universidade Iguaçu (UNIG), vi a necessidade de estruturar a pesquisa dentro da instituição. Desde 2015, com a criação da Coordenação de Pesquisa e da Coordenação de Extensão, iniciamos um trabalho voltado para integrar ensino, pesquisa e extensão, tornando-os indissociáveis. Hoje, temos 140 projetos de iniciação científica em andamento, envolvendo mais de 500 alunos e 80 professores orientadores. Além disso, os programas de mestrado em Vigilância em Saúde e Odontologia têm se consolidado como espaços de produção de conhecimento relevante para a sociedade, principalmente a Baixada Fluminense e Itaperuna, no interior do estado do Rio de Janeiro, onde estão nossas unidades de ensino.

AMIES: Quais foram os principais desafios que você enfrentou como mulher na ciência ao longo de sua carreira, e como enxerga a contribuição das mulheres para áreas tradicionalmente dominadas por homens?
Adalgiza: O maior desafio sempre foi o questionamento constante sobre nossa competência. Como mulher, precisei provar minha capacidade repetidamente em ambientes majoritariamente masculinos. Muitas vezes, as mulheres na ciência são vistas como menos aptas para cargos de liderança ou têm suas pesquisas desvalorizadas. Mas os dados mostram o contrário: segundo a Unesco, a média global de pesquisadoras é de 33,3%, e na América Latina e no Caribe, alcançamos 45%. No entanto, ainda somos sub-representadas nos cargos mais altos das carreiras acadêmicas e enfrentamos disparidades salariais e menos acesso a financiamento.

Na UNIG, conseguimos um feito relevante: 52% dos pesquisadores são mulheres, um número superior à média global. Isso mostra que quando há incentivo e reconhecimento, as mulheres respondem com excelência. Nossa contribuição é essencial para trazer diferentes perspectivas e abordagens inovadoras para a ciência.

AMIES: Na sua opinião, quais políticas ou ações institucionais são fundamentais para promover a igualdade de gênero e a superação dos estereótipos que ainda limitam a presença feminina na ciência?
Adalgiza: Primeiro, precisamos de políticas institucionais que incentivem a equidade salarial e a distribuição equilibrada de cargos de liderança. Também é fundamental ampliar as oportunidades de financiamento para projetos liderados por mulheres. A Capes e o CNPq têm ampliado esses fomentos direcionados à comunidade acadêmica feminina. Outro ponto fundamental é a criação de redes de apoio e mentorias para pesquisadoras iniciantes, evitando que abandonem suas carreiras devido à falta de suporte. Além disso, é preciso garantir licenças-maternidade compatíveis com a manutenção da produção científica, bem como programas de acolhimento para mães-pesquisadoras. Instituições que implementam políticas de equidade tendem a ter maior diversidade de pensamento e impacto social.

AMIES: Que medidas considera importantes para garantir que as mulheres cientistas sejam vistas e ouvidas, e para que suas pesquisas recebam o devido reconhecimento e apoio?
Adalgiza: A visibilidade feminina na ciência deve ser uma prioridade. Precisamos aumentar a representatividade em eventos acadêmicos, garantir presença equilibrada em bancas de avaliação e ampliar a participação feminina em órgãos de fomento. Também defendo a adoção de políticas que incentivem publicações científicas equitativas, dando espaço a pesquisadoras em periódicos de alto impacto. Outra medida importante é fomentar a divulgação científica com enfoque na produção feminina. Quando nossas pesquisas alcançam o grande público, conseguimos inspirar novas gerações de meninas a ingressarem na ciência.

AMIES: Como a pesquisa acadêmica contribui para o desenvolvimento de uma universidade e para a formação de profissionais mais preparados para lidar com os desafios contemporâneos?
Adalgiza: A pesquisa acadêmica não apenas gera conhecimento, mas transforma a universidade em um espaço dinâmico e inovador. Profissionais formados em instituições que incentivam a pesquisa têm um olhar crítico e são mais preparados para solucionar problemas complexos e, em última estância, melhorar a vida das pessoas . Além disso, a pesquisa fortalece a relação da universidade com a sociedade, pois as descobertas científicas influenciam políticas públicas, práticas de saúde, desenvolvimento tecnológico e diversas outras áreas. Na UNIG, nossa abordagem integrada entre ensino, pesquisa e extensão permite que os estudantes tenham contato direto com a produção de conhecimento, tornando-se agentes ativos na transformação social.

AMIES: Como está estruturada a pesquisa na Universidade Iguaçu e quais são os principais incentivos dados aos pesquisadores dentro dessa instituição?
Adalgiza: Desde a criação da Coordenação de Pesquisa, estruturamos um ambiente propício para o desenvolvimento científico. Atualmente, temos um número expressivo de projetos de iniciação científica, além dos mestrados em Vigilância em Saúde e Odontologia, que fortalecem a formação de novos pesquisadores. A UNIG se destaca no cenário acadêmico por ter um percentual de pesquisadoras superior à média mundial, com 52% de participação feminina, algo ainda raro no meio científico. Também oferecemos suporte para submissão de projetos a agências de fomento e incentivamos publicações científicas em periódicos de alto impacto.

Além disso, promovemos eventos acadêmicos para divulgar as pesquisas desenvolvidas e ampliar a interação entre os pesquisadores. Outro diferencial é que temos linhas de pesquisa voltadas para a saúde da mulher, como o projeto Violência Sexual e Direitos das Mulheres: Um Estudo Longitudinal e de Intervenção sobre o Conhecimento da Equipe Interdisciplinar, desenvolvido pela aluna de mestrado Andréa Vieira Zanetti, sob minha orientação e da professora Luciana Armada Dias. Isso reforça nosso compromisso com temas de grande relevância social e a valorização das pesquisadoras na instituição.

Estamos sempre buscando formas de ampliar a inserção da pesquisa na universidade e garantir que nossos cientistas, especialmente as mulheres, tenham o reconhecimento que merecem.